Um dos movimentos culturais mais autênticos e recentes do universo etno-espiritualista afirma: "tempo é arte"; e eu, na borda de uma cultura vertiginosa hei de concordar em absoluto com este belíssimo aforismo de nosso tempo. Lá se vai o tempo onde tempo era dinheiro. Saudemos, ainda a tempo, o tempo que se faz arte e a arte que, daí sim, talvez, se faça dinheiro. Mas esqueçamos por agora o tempo da arte e voltemo-nos à arte do tempo.
Dos pensadores mais relevantes que surgiram nas últimas décadas da humanidade, Eckhart Tolle, se apresenta como um dos mais potentes no que diz respeito à sua capacidade de mudar a nossa relação com o tempo. Com dois bestsellers publicados, sendo um deles um dos mais bombásticos discursos espiritualistas da nossa década perdida ("O poder do Agora"), Eckhart está impulsionando a mudança de consciência da humanidade através de um discurso cristalino como a vento e essencial como o fluxo d'água. Eckhart afirma que a iluminação (ou percepção total da Realidade) pode ser adquirida aqui e agora. Neste exato momento. E para isso você precisa apenas de uma coisa: o derradeiro presente.
Eckhart prega o Presente como a verdade máxima da vida e a criação da noção de tempo como uma estrutura mental delimitada por nossas ansiedades culturais e individuais. O que forma esse senso de tempo é a nossa mente cultural que promove a necessidade do movimento; enquanto isso na dimensão profunda o que há de fato é apenas um único momento constante e imutável: o momento da Consciência; o momento no qual estamos a todos os momentos. O momento Presente.
Este pensamento, obviamente, não é de forma alguma novo. Nem mesmo o "Presente Pop" pode ser chamado de um conceito autêntico em Eckhart, dado o simples fato de que nomes com apelos muito mais populares como o de Ram Dass, escritor de Be Here Now e bálsamo de um ou dois beatles, se fizeram muito mais apetitosos aos olhos da mídia e do povo de outros tempos. Mas realmente Eckhart Tolle possui algo de sui generis que o faz ser um mestre da envergadura de nosso tempo.
Ocidental... para ser mais exato, alemão, ele se iluminou depois de uma espécie de surto psicótico e resumiu todo o seu conhecimento à conexão com o Presente. Mas para mim o fato mais curioso e interessante é que Eckhart, o homem integralizado ao momento presente, não apenas usa um relógio de pulso comum, como também incentiva o uso de relógios de pulso.
Excelente! Para mim, a coerência de todo o seu discurso e modo de vida ganham muito mais respeitabilidade e veracidade por causa deste simples detalhe aparentemente contraditório. Porque uma pessoa completamenta conectada ao presente usaria um relógio de pulso? "Para não se atrasar aos seus compromissos" responderia Nietzsche, caso Deus não estivesse morto.
Caberia à minha tarefa como elucidador concluir com precisão e detalhamento a minha perspectiva sobre a autenticidade de Eckhart Tolle e o seu legado dos relógios de pulso. Mas postular que este é o detalhe semiótico que o faz brilhar como o mestre de nosso tempo não seria suficiente para vislumbrardes a inteligência de um espírito transcendente como o de Eckhart; nem mesmo para conectardes ao Presente Precioso ao qual o mestre doutrina com a fluidez de uma gaivota mediterrânea. Nada mais posso fazer além de colocar esse fato à luz daqueles poucos interessados em ler neste recanto de análises de movimentos do mundo e deixar-lhes procurar, se este for o caso, as profundidades com que Eckhart esmiuça o nosso querido "sempre cotidiano".
Agora posso sim falar-lhes por mim de um ou dois atributos transcendetais que, como usuário de relógios de pulso, posso dizer que este artefato fetichista adiciona às vidas metropolitanas que o selecionam como modo de operar no mundo.
É bem verdade que o Presente Precioso de Eckhart e o tempo do relógio de Santos Dummont muito possuem de contraditório. Enquanto o Tempo Presente nos convida para a profundidade vertical das dimensões de nossa própria auto-consciência, o relógio de pulso de Dummont nos chama para a realidade horizontal da consciência coletiva humana, onde agendas, compromissos e tarefas se armam em uma teia que engloba o dia e a noite. Um Tempo chama-nos ao silêncio do fluxo o outro às vozes dos compromissos. Um não nos convida, nos suga o outro nos empurra, nos lança.
Mas é àqueles homens que conseguem fatiar o dia com precisão e não atrasar um compromisso que Eckhart pronuncia suas palavras. É àqueles que já possuem os mecanismos de um relógio de pulso entre sua engrenagem cinzenta que Eckhart fala. Ele convida a estes homens da hora a cairem no breu entre os segundos e perceber que o ciclo redondo do dia é um efeito qualquer, como o efeito de nossas próprias vidas. Que nos ciclos incessantes da precisão humana, há a organicidade da organização total, há o não inventado, o bruto harmônico do pulsar. Nossos relógios remontam o organismo cósmico. Nosso funcionar em máquina nos faz fluir pelas telas das verdades inventadas. Não que sejam más verdades. São as hastes de nossa teia, onde nossa natureza avança como o passar de um inseto mecânico. É quando intorjetamos esse mecanismo da precisão que controla o bem mais escaço de nosso tempo (o próprio tempo) é que nos afastamos dessa teia para percebermos que o fractal dos ponteiros nos apontam a todas as direções. Que nosso tempo deve ser cumprido para que o comprimento do Todo seja entendido.
João Mognon nos fala: "Coordenar o tempo do relógio é dançar na fina navalha da vida metropolitana, equilibrar-se na situação de periculosidade constante de um equilibrista de agendas rodopiantes. Introjetar relógios é conviver com a passagem do todo o tempo todo, sem nunca deixar de saber que do todo, nada passa."